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Exposição: EXTERIORES/INTERIORES
2011-05-20 08:07:48
Exposição "EXTERIORES / INTERIORES"
Local: Universidade Nova de Lisboa / Biblioteca da FCT
Datas: 15 de Setembro a 30 de Novembro de 2011
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Exposiçao: INTERIORES
2009-10-06 11:32:04
O Museu D.Diogo de Sousa em Braga inaugura no próximo sábado, 10 de Outubro às 18h30 uma mostra intitulada “INTERIORES” de Pintomeira.
Estará patente até 29 de Novembro de 2009

Interiores
Foi Walter Bejamin o primeiro a dar-se conta, nos anos trinta do século passado, que a obra de arte perdera a aura de original único e irrepetível. Nela não radicava mais a fonte de um thesaurus de significação. As nascentes indústrias culturais do cinema e da fotografia vinham imprimir às imagens o carácter profano de formas tecnicamente reproduzidas, impunham-lhes um circuito comercial, aproximavam as artes visuais das artes do palco, convertiam-nas em comunicação de massas.A pintura segue este mesmo caminho: permanece nela um vínculo carnal e orgânico, vitalista, mas o seu espírito não é mais essencialista, nem elitista, passando a ser moldado por esta cultura profana, que tem nas máquinas de fabricação de imagens o seu suporte. Em vez da procura de um universal estético, a arte deambula agora pelas convulsões da experiência moderna, emparelha com a comunicação de massas e encena o mundo dos objectos do quotidiano, reutilizando as técnicas da fotografia, da publicidade e do design gráfico.
Pintomeira exprime este movimento. Surrealista desde finais dos anos sessenta, mas sobretudo nos anos setenta, fez depois uma multifacetada evolução, em que predominam as influências do grupo COBRA (justaposição das letras iniciais das cidades de Copenhaga, Bruxelas e Amsterdão), e também o experimentalismo figurativo sobre o contorno, vindo a aproximar-se progressivamente, já neste século, da Pop Art, de que é hoje uma figura maior.
No seu traço, a pintura deveio uma arte profana, que multiplica os vínculos com a fotografia, e sugere a pintura de cartazes, as colagens para anúncios publicitários, os desenhos de anúncios de produtos, não sendo mais o reduto de uma essência codificada pela representação do artista, nem uma actividade para o consumo de uma elite. Na pintura de Pintomeira não é apenas o figurativismo estético que permite ao artista a comunicação com o grande público. Pelo exercício apurado das técnicas publicitárias e do design gráfico, nunca como hoje, também, ressumou na sua pintura o quotidiano da cultura de massas, em claro desafio ao hermetismo abstraccionista da arte moderna.
Tendo iniciado em 2000 a ‘Nova Linha', momento em que começam a notar-se-lhe influências da Pop Art e do Design Gráfico, Pintomeira filia-se mais e mais nestas correntes estéticas, sob a influência dos pintores David Hockney, britânico, e Tom Wesselmann, americano.
O tema ‘Interiores' inscreve-se nesta última fase do artista.
Percebemos em ‘Interiores' que não são apenas os humanos que têm um momento de esplendor, um "eterno instante". Também os objectos o têm, seja enquanto protótipos, com a ‘griffe' de uma marca comercial, seja enquanto modelos na passerelle, ou então como manequins em montra, muitas vezes "corpos sem órgãos", segundo a expressão de Antonin Artaud, corpos sem boca, nariz e olhos, mas sempre com pele, porque corpos erotizados, com sex-appeal, corpos estilizados em silhuetas gráficas, mas que constituem uma espécie de fusão do humano e do inumano.
Existe hoje na pintura de Pintomeira este esplendor dos objectos, uma poética que inscreve o humano naquilo que o não pode ser. O seu sistema de objectos faz-nos pensar numa autopoiesis, que age no mundo como uma unidade autónoma que se auto-engendra.
A composição de ‘Interiores' é minimalista. As cores são fortes, contrastantes, e tendencialmente primárias (branco e preto como cores neutras; além destas, vermelho, azul e, em vez do amarelo primário, o ocre). Os espaços são sempre apresentados em apontamentos simplificados, sem grande investimento no jogo de sombras e com formas quase geométricas, onde apenas a figura humana foge ao traço recto dos objectos. Pintomeira traça as principais componentes das peças e introduz pequenas parcelas de desenho, umas vezes pontilhado, outras às riscas, e ainda em linha recta ou circular, de modo a definir melhor um detalhe de janela, cortina, candeeiro, tapeçaria, carpete, ou mesmo de figura humana. A sua capacidade de síntese sobressai, por outro lado, nas vistas exteriores, que são aliás raras nesta fase do artista. A figura humana, por sua vez, dá quase sempre, apenas, a escala do desenho, sendo por regra drasticamente reduzida ao contorno. Representada muitas vezes a preto e branco, mas também a azul e preto, e ainda a ocre, nela podem todavia sobressair uma gravata a azul, o design dos sapatos, o recorte das abas do casaco, o rouge dos lábios. A pose é a situação mais habitual: sentada, destacando-se a mão no braço do sofá e a perna cruzada, no caso de uma figura feminina, ou então as mãos, juntas lado a lado, de dedos estendidos e penduradas nos joelhos, se se tratar de uma figura masculina; de braços cruzados; de mãos nos bolsos, com uma mão na anca e outra no cabelo; diante de uma tela, com um telemóvel no ouvido. Sugerindo a pose de um modelo na passerelle, ou então de um manequim numa montra, quando não se apresenta como imagem sobre tela, no caso de um retrato, a figura humana parece por vezes uma encenação fotográfica, ou então uma personagem cinematográfica. A combinação da figura humana, tanto com formas definidas de objectos, como com formas indefinidas, aparentemente planas, sem volume, cria uma tensão dramática convocando a atenção do espectador.
Neste sistema de objectos sobressaem o palco, a tela e a encenação.
O palco de um jarrão, de um cesto de papéis, de um bengaleiro, de um candeeiro suspenso do tecto, ou de um outro bibelot com ‘griffe' - estamos a falar de peças de design.
O palco dos espaços alcatifados, assépticos, das montras comerciais ou dos escritórios de vendas - falamos de espaços aparelhados para em si mesmos constituírem instalações de arte.
O palco de uma figura de mulher de perfil, sentada à mesa, solitária, de olhar pensativo diante de uma mesa vazia, num ambiente cor de cinza, sugerindo uma fotografia, ou então o quadro de uma peça levada à cena
A tela com um busto feminino desnudado, de costas, em que todavia uma ligeira torção dos ombros e da cabeça permite fazer sobressair o rosto.
A tela às riscas, na horizontal, em tons de cinza, em que se inscreve a preto um enorme algarismo sete, e se inscreve também, num plano mais próximo, uma figura de mulher, apresenta-nos sugestões múltiplas: de desfile em passerelle, de pose fotográfica, de personagem cinematográfica, de manequim encenado.
A tela às riscas, na horizontal, em tons de rosa, com uma figura de mulher, vestida de preto, às riscas igualmente horizontais, sugere que a figura humana é a passerelle de si mesma.
A encenação de um busto de mulher, em posição frontal, com o olhar distante e ligeiramente em oblíquo, sugere um retrato, podendo todavia imaginar-se uma escultura.
A encenação de uma figura de mulher sentada, em posição frontal, com as mãos na cara e os ombros apoiados no tampo de uma mesa, apresenta uma figura feminina em pose serena, apesar do seu total enclausuramento, acentuado pela janela fechada, sem horizonte, nas suas costas, pelos livros meramente decorativos, também fechados sobre o tampo da mesa, pelo jarro vazio de flores, de certa maneira igualmente encerrado na sua inutilidade funcional, e pelo desenho pontilhado de linhas curvas e rectas que dramatizam o carácter claustrofóbico do local. Serenidade, pois, dado o facto de a simplicidade dos objectos trazer dinâmica e um certo conforto íntimo à vida humana.
A encenação de um telemóvel, que é um instrumento-fetiche da sociedade de consumo.
A encenação de cadeiras e sofás, e de um sapato de mulher, exibidos como peças de design, como protótipos de uma marca comercial.
Este sistema de objectos, representados em palco e exibidos num espectáculo a cores, como elementos de um complexo jogo de linhas tracejadas e de contrastes, sugere-nos os não-lugares da actual sociedade de consumo, lugares anónimos, lugares de passagem, lugares reverberantes de cor e luz, que constituem momentos de emoção estética, cuja dramaticidade é acentuada pela composição teatralizada dos modelos, manequins ou personagens.
Existe hibridez nas silhuetas que figuram corpos, meio fotografias, meio protótipos, meio manequins, meio personagens, meio esculturas. Por outro lado, tratando-se de objectos erotizados, dir-se-ia que ‘biotecnologizados', estes corpos maquinam em nós sensações e emoções, como que nos tocando a pele. Estamos, é certo, do lado de cá do palco, mas estamos também de frente para o espectáculo da exibição dos objectos, acabando por nos descobrirmos igualmente híbridos, feitos de uma amálgama que com eles nos imbrica.
Podemos dizer, ainda, que híbrida é, além disso, a composição dos espaços. O surpreendente cortinado suspenso na parede, o rigor do contornos dos objectos, o pormenorizado desenho da grade de ferro na janela, a exactidão figurativa dos objectos e dos corpos que mobilam o espaço, são combinados com o contraste de insólitas manchas de cores tendencialmente primárias, que parecem nascer por si mesmas, o recorrente e enigmático desenho do algarismo sete (uma espécie de reminiscência da sabedoria judaico-cristã, ou então, de cabalística chave na porta de entrada de não se sabe que mundos), o irregular pontilhado de uma linha recta que intersecta uma linha ovular, com sugestões de um sonho de papagaio de papel, e enfim o inusitado mas saliente contorno na parede de um detalhe de pano estriado.
E são híbridos, finalmente, estes espaços em que a visão do seu interior, permite divisar igualmente o seu exterior, com um mundo da vida, figurado lá fora, depois de franqueado o espaço intermediário de uma grade de ferro, situada na parte de fora de uma janela aberta, que tanto separa como aproxima os dois espaços. Com efeito, em contraste com o mundo dos objectos no interior, é uma vez figurada no exterior a ramagem de uma palmeira que se ergue num horizonte azul, e também é figurado um repente de pássaro ‘naïf', em "liberdade livre" de voo azul.
Em ‘Interiores' são raros, todavia, estes espaços que articulam o interior com o exterior. Nesta fase estética, marcada pela Pop Art e pelo Design Gráfico, Pintomeira descreve, de um modo geral, lugares enclausurados em si mesmos, sem linhas de fuga nem horizonte. Este procedimento obedece aos princípios da Arte Minimalista. Ao privilegiar o espaço de exposição, o artista cria uma obra que se situa entre a pintura, a escultura e a arquitectura. Este espaço, simultaneamente contínuo e descontínuo, assenta na autonomia do mundo interior e não parece conceber qualquer exterior. Mas não é inconcebível que esta paisagem possa ser também percebida do exterior, embora o interior fique necessariamente escondido pela fachada.
Talvez o aspecto mais surpreendente da composição gráfica de ‘Interiores' seja o jogo de linhas curvas, dobradas, que intersectam linhas rectas. Entre as linhas curvas tem um lugar de destaque o algarismo sete. A linha curva, dobrada, constitui na filosofia barroca leibniziana a possibilidade de compreender o universo que nos envolve e o princípio das forças que organiza, de acordo com uma multiplicidade de pontos de vista. A dobra vai até ao infinito e apenas pode ser apreendida por uma série cujo número é ele próprio infinito. O número sete é em ‘Interiores' esse número de série. Passe a sua ressonância judaico-cristã, o número sete é uma dobra constituída por um ponto de inflexão, ou de inclusão, sobre uma linha recta, para dar lugar a uma curva. A curva em que consiste o número sete é na obra de Pintomeira uma ode à matéria, que ninguém pode apreender na sua integralidade.
Em conclusão, podemos dizer que nesta poética da composição artística, em que consiste ‘Interiores', Pintomeira isola as unidades mínimas da composição, tentando aproximar-se, o mais que pode, das formas de vida contidas na encenação dos objectos. Não se interrogando, hoje, sobre a origem da vida, nem sobre o modo como ela surge, Pintomeira apresenta em ‘Interiores' as tensões que lhe permitem manter-se coerente com o seu percurso artístico, reunindo ao mesmo tempo as condições de possibilidade da sua própria metamorfose para novas mutações e hibridações.
Moisés de Lemos Martins
Professor da Universidade do Minho
Comissário da Exposição
Pintomeira expõem trabalhos sobre a história de Viana do Castelo
2009-04-01 08:40:52
A Câmara Municipal de Viana do Castelo inaugura, no próximo sábado, pelas 11h00, no Museu de Arte e Arqueologia, a exposição “Pintar a História de Viana” com obras de cinco artistas plásticos: Rui Pinto, Júlio Capela, Pintomeira, Elder Carvalho e Dalila Fernandes.
Esta exposição nasce de um desafio lançado pela Autarquia aos artistas para que produzissem, no âmbito das Comemorações dos 750 Anos de Viana do Castelo, pinturas alusivas a várias etapas da evolução do Município. São, ao todo, vinte obras de cinco artistas plásticos que pintaram, cada um deles, quatro telas alusivas a quatro momentos da história de Viana do Castelo: fundação do Município (século XIII), expansão marítima (séculos XVI e XVII), elevação a cidade (segunda metade do século XIX) e o Município do século XXI.
A exposição, da responsabilidade do Museu de Arte e Arqueologia de Viana do Castelo, estará patente até Junho na Galeria daquele espaço museológico, antes designado como Museu Municipal desde 24 de Maio de 1961. Este espaço tem uma colecção constituída por mobiliário indo-português e indo-europeu, faiança representativa de quase todas as fábricas portuguesas dos sécs. XVIII e XIX com especial relevo para a Louça da Fábrica de Darque-Viana, azulejos hispano-árabes, pinturas, desenhos, etc., a que se junta agora a parte arqueológica da Igreja das Almas e da Casa dos Nichos.
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Fonte: C. M. de Viana do Castelo
Exposição - "Nova Linha"
2007-10-24 16:08:04
De 10 de Novembro a 2 de Dezembro de 2007, Pintomeira expõe cerca de 30 obras (acrílicos e técnica mista) na Casa Municipal da Cultura de Coimbra.
Inauguração: Sábado, 10 de Novembro pelas 16 horas.
Nova Linha - 11 Agosto a 9 Setembro 2007
2007-10-24 16:03:29

Da Manipulação dos Objectos à sua Desmaterialização
2007-10-12 16:33:11
A tratadística estética barroca definiu o respectivo classicismo em função de dois paradigmas - os de Aristóteles e de Horácio. Do primeiro recuperou o projecto da obra de arte como mimese (μιμησιζ). Do segundo Ihe aplicou o lema "ut pictura poesis''. Pintura e poesia tinham como função imitar (μιμέομαι, assim mesmo, na voz média) a natureza. E a pintura aparecia como muda poesia e a poesia como pintura falada. Só que da natureza já a escolástica tinha produzido a distinção entre natura naturata e natura naturans. Nesta ordem de ideias, portanto, a mimese visaria tanto reproduzir a natureza objectiva, aí-estante, como a natureza que o é para mim, i.é, para o artista. O ideal do verdadeiro artista estaria tanto em Zêuxis que pintou umas uvas tão reais que as aves as vinham penicar, como em Apeles que pôs à discussão o a pintura duma figura humana para que cada um dos analistas a criticasse (mas do seu ponto vista: o sapateiro como sapateiro e o poeta como poeta). Poeta é Vergílio quando reproduz o som e o largo movimento das ondas¹ , como quando lamenta a ruína de Troia² , para citar apenas três versos célebres. De facto, Platão tinha já chamado a atenção para 0 facto de que os poetas, no êxtase a que um δαίμωυ interior os conduzia, tentavam aproximar-se - e depois reproduzir - as ideias perfeitas com que os renascentistas identificaram os seus objectos poéticos. Por isso Camões diz da mulher idealizada ("aquela bela e pura semideia") que "está no pensamento como ideia”. Esta referência à estética barroca, assim como à greco-romana de modo algum vem a despropósito e por mais que contrarie os seus cultores, quando se pretende pensar o surrealismo. Foi das correntes estéticas (artísticas e poéticas) mais apaixonadamente seguidas, mais duradouramente mantidas, mas quiça das mais equivocamente explanadas. Como os barrocos, 0 pintor surrealista e fundamentalmente poeta. Os objectos, elementos, fragmentos, cores, perspectivas por ele descritos ou representados são passíveis duma semiologia quantas vezes directa - são poesis picta ou pictura poetica. Uma pintura surrealista - mesmo a dum cadavre exquis - é passível quase duma "tradução" verbal. Por outro lado, também num quadro surrealista quem aparece é o próprio pintor, verdadeira natura naturans dos objectos reais tor-nados objectos pintados. De facto, o que dele próprio o pintor representa são os sonhos - que numa visão psicanalítica exprimem a sobre-realidade onde se encontra o super ego, os ideais, aquilo que numa perspectiva nietzscheana as normas sociais tem vindo a proibir e numa perspectiva freudiana a castrar. O surrealismo reproduz um constructo onírico e não o subcons-ciente: "surrealismo" é transliteração do francês "surrealisme", que nunca pretendeu ser "sub-" mas efectivamente "sur-realisme”. Por isso, o surrealismo foi das correntes mais duradouras se não mesmo das mais recorrentes: encontramos sugestões mais ou menos oníricas e sobre-reais em Bosch, em Arcimboldi, em Goya, em Klee. Ligado ao Grupo COBRA, Pintomeira começou por uma mimese poiética surrealista, que desenvolveu nos anos '70-79, com ruínas, formas túrgidas sem rosto, corpos idealizados, perspectivas, paisagens urbanas de fantasia, alguns dos ícones e objectos que retomara numa fase mística recente e numa coeva de "imortalização" (diz ele) de objectos. Estas pinturas, porém, para que a sua mensagem chegue até quem a contempla, não podem padecer quaisquer disfunções e por isso são absoluta-mente clássicas na forma. Só um artista que domine com maestria as técnicas e materiais, os contornos e a perspectiva, a cor, a luz e a sombra pode pintar surrealisticamente, como o fizeram Magritte, Dali, Chirico ou Antonio Da costa.
Pintura XLIII | De facto, Pintomeira foi sempre muito meticuloso na representação dos objectos com que povoou os seus quadros. A acentuação dum aspecto dos seres - o rosto, o interior da maçã cortada à faca - permite descobrir uma dimensão poetico-pictórica na carapaça com que se velam. A intimidade que se procu- ra conquistar ou com que se sonha fazem do contorno uma como que concha com que nos protegemos, afinal sucedâneo do ventre materno onde fomos felizes e estivemos seguros. O contorno rea-liza, no imaginário de Pintomeira, o útero materno onde nos for-mámos, mas também essa primeira conquista da vida, que foi a membrana celular. De facto, no contornismo deste artista rara-mente a moldura do quadro serve de invólucro. Pelo contrário, os limites do quadro representam um corte no pictograma, por vezes um corte abrupto como faz um enquadramento paisagístico, mas dum universo onde cada um de todos os seres aparece incomunicável dentro da respectiva carapaça. A pintura aparece, assim, como o retrato dum real (sonhado ou imaginado, para todos os efeitos, criado) a mimese duma porção de real (de natura - interi- or - naturata), não de natura naturans, porque nesta fase Pintomeira ainda não entrou pelos domínios do transcendental. Artista inquieto (e irrequieto), Pintomeira foi sempre tentando várias experiências, logo desde a sua fase mais rica que foi a "surrealista”. Já se apontaram os contornos, alguns ícones e objec-tos emblemáticos e simbologemas. Retomou algumas soluções icónicas da primeira fase e com elas deu largas ao que ele mesmo classificou como "Mística e mitologia”. Mas, numa pintura onde o lirismo esta praticamente ausente, o que nos aparece, neste episódio (ao que se me afigura) da carreira artística de Pintomeira, são alegorias sobre o amor. Este é glosado através dos mitos clás-sicos de Leda o Cisne - ela pintada como corpo ideal e alma ausente (olhar orientado a 150° relativamente ao eixo da pintura), o fálico cisne, envolvente e protector, de brancas asas luciferinas; e de Apolo e Dáfne com esta fugindo em direcção ao espaço numa oblíqua a 30°. A aproximação mística arranca da representação, já não do amor velado, mas da transgressão amorosa contida no mito judaico do pecado de Adão, mas que nos aparece ainda disfarçado em fauno fascinado perante um torso feminino. A mística propriamente dita e, por isso, também topicamente feminina, na forma duma “Mater dolorosa" olhando a 30° para den-tro de si, para a suave dor que Ihe passa no espírito. No encontro de Pintomeira com a natureza exterior, o que resultou foi a obsessão pictórica pela calma horizontalidade da paisagem holandesa, com o verde geométrico dos campos sepa-rado por uma banda luminosa do azul do céu que se vai aden-sando a medida que sobe no quadro. Nestas obras de Pintomeira, que esteve decerto atento à tradição zográfica neerlandesa, o que ocorre não é o geometrismo nem o cromatismo suave e plano de Mondrian, mas a composição côn-cava das pinturas dos primitivos. Contudo, numa pintura de Ponte de Lima já a composição é convexa, a dominante é grená e o sol, as montanhas, a ponte, a roupa a secar, aparecem destacadas por um contorno branco que as materializa em objectos autónomos. Os objectos tem em Pintomeira uma dimensão plástica. Herdeiros das "naturezas mortas" da pintura oito e novecen- tista tanto como dos "bodegones" barrocos, na sua obra material-izam-se em formas impositivas, mas das quais se desprendem formas, cores, séries numéricas desmaterializadas vivendo quase como puras formas na reposição mais platónica possível dum universo de formas ideiais. A desmaterialização dos objectos foi a caminho seguido por Pintomeira numa nova linha onde a contorno acabou depois por se reduzir a um filete, as imagens dos objectos aparecem estil- izadas quando não reduzidas a silhuetas sem cor nem respeito pelos outros objectos do quadro, e este composto de texturas que Ihe conferem ritmo, irrealidade, estatuto de "formas puras”. Neste ambiente Pintomeira colocou grelhas quadriculares, aves, silhue-tas femininas, rostos de perfil, frutos; e varandas, e luas, e caras com olhos de espanto. Ao mesmo tempo, a artista redescobriu o valor plástico da frontalidade primitiva, das cores planas que vie-ram do Japão espantar as simbolistas e as "Nabis", do traço ingé-nuo ao lado da construção pictórica mais rafaelesca, das sobreposições de imagens criando através da cor objectos inter-seccionistas. É o próprio métier de pintar que se desvela expondo temas, formas de tratamento, desnudando a estilo depois e des-materializar as objectos. Nesta retrospectiva podemos constatar a diacronia duma evolução artística, mas também a recorrência, apesar dela, de temas e tópicos constantes, fundamentalmente uma luta pela expressão como tal, através duma serenidade e segurança, de que resulta uma pintura sem angústias, feita toda duma visão do mundo construída a partir dum miradouro privilegiado, situado muito para cá das coisas e algo para além dos problemas.
Alberto A. Abreu |
| ¹ En 1,86: et uastos as litŏra fluctus ² En 2,361-362 : Quis clǎdem ilius noctis, quis funĕra fando / explicet aut possit lacrimis aequare labores? |
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